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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
A Janela Vedada, por Ambrose Bierce
Este conto, escrito por Ambrose Bierce, possui um final funesto. É uma obra bastante... animalesca. É o que posso dizer. Leiam e confiram.

O casebre de madeira, com sua chaminé primitiva, seu telhado de ripas arqueadas dispostas sobre vigas cruzadas e calafetas com barro, tinha uma única porta no lado oposto ao da janela. Esta, contudo, estava vedada com tábuas e ninguém recordava quando é que não fora assim. Ninguém tampouco sabia o porquê da vedação. Decerto não era porque o ocupante sofresse de aversão à luz ou ao ar, já que, nas raras ocasiões em que o caçador cruzara aquele lugar solitário, o recluso, caso os céus lhe houvessem propiciado um bom tempo, fora frequentemente visto a tomar sol diante da casa. Creio que há poucas pessoas ainda vivas que saibam o segredo da janela, mas, como vocês verão, eu sou uma delas. Diziam que ele se chamava Murlock. Embora aparentasse setenta, tinha cerca de cinqüenta anos. Outra coisa, além dos anos, contribuiu para seu envelhecimento. Seu cabelo e a longa barba cerrada eram grisalhos, tinha olhos castanhos, embaçados, fundos e um rosto singularmente sulcado de rugas que pareciam pertencer a dois conjuntos entrecruzados. Seu porte era alto e magro, com os ombros encurvados de quem carrega peso. Eu mesmo nunca o vi, e fui informado desses pormenores por meu avô, que foi quem, na minha infância, contou-me a história de Murlock. Ele o conhecera quando, naqueles dias remotos, viva em sua vizinhança.
Um dia Murlock foi achado morto em sua cabana. Como aquela não era uma época de legistas e jornais, concordou-se, suponho, que ele morrera de causas naturais, pois, caso contrário, teriam me dito e eu me lembraria. Tudo o que sei é que, talvez com um sentido do que era apropriado, o corpo foi enterrado perto da cabana, junto à sepultura de sua mulher, que, por ter morrido tantos anos antes, mal deixara na memória local um traço que fosse de sua existência. Isso encerra o capítulo final deste história verdadeira, exceto, aliás, pelo fato de que anos e anos mais tarde, acompanhado de um espírito igualmente intrépido, aventurei-me no recanto e me aproximei da cabana o bastante para tirar nela uma pedra e sair correndo do fantasma que, como todo garoto bem informado sabia, assombrava o lugar. Há, porém, um capítulo anterior – aquele com que meu avô me presenteara.
Quando Murlock construiu sua cabana e se dedicou vigorosamente ao desmatamento com o intuito de lavrar uma roça, vivendo entrementes de seu rifle, era jovem, robusto e confiante. No país a leste do qual viera ele se casara, como era costume, com uma jovem que, em tudo merecedora de sua afeição sincera, compartilhava, de boa vontade e sem remorsos, os perigos e privações de seu destino. Não há, que se saiba, registro de seu nome. Sobre seus encantos espirituais e pessoais, tampouco há lembrança, e quem tiver dúvidas, que as tenha. Mas Deus me livre de endossá-las! Não faltaram, em cada dia vivido pelo viúvo, provas de sua felicidade e afeto mútuo; pois o que, senão o magnetismo de bênçãos relembradas, poderia ter acorrentado aquele espírito arrojado a tal sina? Certo dia, voltando de uma parte remota da floresta aonde fora caçar, Murlock encontrou a mulher alquebrada, febril e delirando. Não havia médico num raio de muitos quilômetros, nem vizinho algum. Tampouco ela estava em condições de ser deixada a sós enquanto ele buscava auxílio. Ele tentou cuidar dela, esperando que se recuperasse, mas, ao final do terceiro dia, a mulher perdeu a consciência e, sem jamais, ao que parece, tê-la recuperado, faleceu.
Pelo que sabemos de temperamentos como o dele, podemos imaginar alguns dos detalhes do quadro cujos contornos meu avô delineara. Uma vez convencido da morte dela, Murlock manteve a lucidez necessária para se lembrar de que os mortos devem ser preparados para o enterro. Cumprindo esse dever sagrado, cometeu erros de quando em quando, fez algumas coisas incorretamente e repetiu outras várias vezes até acertar. Sua incapacidade aqui e ali de executar uma ação comum o deixava atônito como alguém que, embriagado, não entende a suspensão de leis da natureza conhecidas. Que não chorasse, surpreendia-o e também meio que o envergonhava: decerto era insensível não chorar pelos mortos. “Amanhã”, disse em voz alta, “terei feito o caixão e cavado a sepultura; então sentirei falta dela, quando não puder mais vê-la; mas agora – ela está morta, é claro, mas está tudo bem – deve estar tudo bem, de algum modo. Nada é tão ruim quanto parece.”
De frente para o cadáver, à medida que escurecia, ele lhe arrumou o cabelo e deu os retoques finais a seu vestuário singelo. Fez tudo mecanicamente, com uma atenção despida de sentimentos. E, no entanto, uma sensação subjacente de certeza – de que tudo estava bem – perpassara-lhe a mente. Sem experiência prévia de dor, sua capacidade de senti-la não fora exercitada pelo uso. Seu coração era incapaz de abarcá-la por inteiro e sua imaginação, de imaginá-la. Ele ignorava a dureza do golpe que sofrera. Tal conhecimento viria depois e nunca mais o deixaria. A dor é uma artista cujos poderes são tão diversos quanto os instrumentos nos quais toca seus lamentos para os mortos, despertando em alguns as notas mais agudas e penetrantes e em outros os acordes baixos e graves que palpitam repetidamente como as cadências lentas de um tambor distante. Alguns temperamentos, ela alarma; outros, entorpece. Há quem ela atinja feito uma flecha, excitando-lhe as suscetibilidades para uma vida mais ativa; há quem ela abata como uma clava que, num golpe, paralisa a vítima. Murlock foi provavelmente afetado desta última maneira, pois (e isto é mais do que mera conjectura), assim que terminou suas piedosas tarefas, afundou na cadeira junto à mesa sobre a qual jazia o corpo e, observando quão branco o perfil se mostrava contra as trevas cada vez mais espessas, depôs os braços na borda da mesa e, sem lágrimas mas indizivelmente exausto, deixou cair neles seu rosto. Naquele preciso instante, um gemido prolongado, semelhante ao grito de uma criança perdido no fundo da floresta que escurecia, entrou pela janela aberta. Ele, porém, não se mexeu. Ainda mais próximo, o grito sobrenatural soou de novo enquanto ele desacordava. Talvez fosse uma fera, talvez um sonho. Pois Murlock adormecera.
Algumas horas mais tarde, ou assim lhe pareceu depois, a sentinela irresponsável acordou e, erguendo a cabeça deitada nos braços, ouviu atentamente – sem saber por quê. Lá, no breu escuro junto à morta, recordando tudo sem sobressalto, ele se esforçou para ver não sabia o quê. Todos os seus sentidos em estado de alerta e a respiração suspensa, seu sangue, como que colaborando com o silêncio, parara de correr. Quem ou o que o acordara, e aonde é que estava?
Súbito a mesa foi sacudida debaixo de seus braços e no mesmo instante ele escutou, ou julgou escutar, um passo leve, suave, e mais outro - sons de pés descalços pisando o chão!
Aterrorizado demais para gritar ou se mover, viu-se obrigado a aguardar – aguardar ali no escuro durante o que lhe pareceu serem séculos do maior pavor que se pode experimentar e ainda viver para contar. Ele tentou em vão pronunciar o nome da morta, tentou em vão estender a mão sobre a mesa para verificar se ela estava ali. Sua garganta estagnou, seus braços e mãos pesavam como chumbo. Foi então que ocorreu algo assustador. Um corpo pesado parecia ter sido arremessado contra a mesa com tamanho ímpeto que esta foi empurrada conta seu peito tão bruscamente a ponto de quase derrubá-lo. Ao mesmo tempo, ouviu e sentiu algo cair no chão com um baque cujo impacto violento fez a casa inteira estremecer. Seguiram-se um embate e um tumulto barulhento impossíveis de descrever. Murlock se ergueu. O excesso de medo o privara do controle de suas faculdades. Ele lançou as mãos sobre a mesa. Não havia nada lá! Há um ponto no qual o pavor se converte em loucura e a loucura instiga a ação. Sem intenção clara ou motivo, salvo o impulso caprichoso de um louco, Murlock alcançou com um salto a parede e, após tateá-la brevemente, pegou seu rifle carregado e, sem fazer mira, disparou. Graças ao clarão que iluminou vividamente a sala ele viu uma pantera imensa arrastando a morta ruma à janela, seus dentes cravados no pescoço dela! O que veio em seguida foi uma escuridão ainda mais negra e o silêncio. Quando ele recobrou os sentidos, o sol estava alto e a floresta melodiosa com o canto dos pássaros.
O corpo jazia perto da janela onde, espantada pelo clarão e pelo estampido do rifle, a fera o deixara. A roupa estava desarrumada; a longa cabeleira, revolta; os membros, contorcidos ao léu. Do pescoço horrendamente dilacerado jorrava uma poça de sangue ainda não de todo coagulado. A fita com a qual ele lhe atara os pulsos se rompera. As mãos estavam firmemente crispadas. Havia entre os dentes um pedaço da orelha do animal.
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domingo, 23 de dezembro de 2007
O Diabo, por Ileana Schnitzler
O Diabo

Lembro dessa tarde como de nenhuma outra. Acho que é a única que o tempo não apagou. A única lembrança igual ao que aconteceu.
Ele vinha me seguindo há algum tempo e eu nunca fugi. Estava mais ansioso para me falar que eu para escutar.
Nesse dia, apresentou-se soberano, vermelho. Abordou-me, quando eu saía de casa, dizendo:
- Não olhe para trás, siga caminhando como se nada tivesse acontecido. Só você pode me ver e vai perceber que os demais vêem teus gestos, não os meus. Chegou o grande dia e aqui estou, disposto a te levar.
- Achei que íamos discutir antes, - murmurei com dissimulação – preciso de mais tempo.
- O prazo vence quando o sol se por. Serei tua sombra nesta última hora. Você decide.
- Isso significa que posso não aceitar?
- Sim, - soltou um riso escuro, cavernoso -mas terás que suportar as conseqüências…
- Não me deixa opção. Ainda não entendo por que me elegeste, a mim, um homem comum e corrente…
- Em modo algum, -interrompeu, - és o eleito perfeito para ser meu sucessor do novo século.
- Sou tua antítese, que tem isso de perfeito para você?
- Não banque o vivo, ganando tempo. Reconheço que tua resistência é um dos aspectos que te faz mais interessante. Veja, vou conceder-te estes últimos minutos mas não esgote minha paciência. Venha, ali há um banco, debaixo de uma árvore.
A capa vermelha sibilou no ar e apontou ao banco de praça solitário. Um gesto teatral e zombador que desdenhei do fundo dessa estranha tranqüilidade que me invadia. A pequena trégua fortalecia minha oposição.
Acomodou-se abrindo os braços em cruz sobre o espaldar, com ar de querer abarcar o mundo. Cuidei de sentar-me num extremo, como se isso me afastasse de seu alcance.
- Observe o entardecer, - continuou - essas nuvens sangrentas, vá se acostumando a paisagem futura, às eternas labaredas de meu reino!
- Não te imaginava poeta, tens algo de sensibilidade…
- Não tente ser irônico, você sabe que sou imune a essas alfinetadas.
- Como eu às tuas…
- Esse é o ponto! Um ser humano incorruptível, o maior atrativo ante meus olhos, você é meu desafio. O formidável domínio que tens sobre tua consciência, a firme resistência a minhas influências, como não teria de te eleger?
- Isso é contraditório. Posso fazer de teu inferno um paraíso.
- Que não perca a onipotência, não sabe o que dizes. Uma vez que me substituir você será completamente eu. Pensará e atuará como eu, reinará no inferno e na terra, gozará da tortura sobre mortos e vivos, se encarregará da perdição de todo habitante do planeta. Esse tem de ser seu destino durante um século completo, ao cabo do qual você elegerá seu sucessor. Sempre foi assim e seguirá sendo.
- A não ser que me negue…
- Cabeça dura… Quando se convencerá que sou absolutamente necessário para o mundo? Pense um pouco, sem o mau que seria do bem? Sem a feiúra, existiria a beleza? Que sentido teriam a lealdade, a humanidade, a sinceridade e toda esse moralismo sem a presença da traição, a altivez, a mentira, todo o que eu represento? Pode entender deste modo: estou te oferecendo o reinado do equilíbrio, nada menos!..
- Um falso equilíbrio, você dirá. Sempre soube fazer bem teu trabalho, inclinando a balança para sua conveniência.
- Porque sou inteligente e sagaz quando se trata de meu dever. Igual a você.
Esboçou um sorriso em meia lua, enorme e salivoso como um talho de melancia.
- Você esqueceu de acrescentar sem escrúpulos, a diferença de mim – acrescentei mais pesaroso que temeroso. – Você me ameaçou com a morte em suas formas mais horríveis e todos temos de morrer algum dia; ignoramos se será contemplando um entardecer como este ou despedaçados sob a metralhadora da guerra, se nós iremos morrendo de velhice ou carcomidos pela doença mais atroz. Não compreendo o que perco me negando.
Pela primeira vez me animei a enfrentá-lo. Minha atitude alterava-o, os olhos eram duas brasas, o cenho um sulco escuro e feroz. Mostrou os dentes:
- Quem sabe isto ajude a sua decisão…
Bastou um gesto no ar e uma dor aguda se instalou em minha nuca. Imaginei-me desvertebrado como um frango a quem retorcem o pescoçoe. Quando meus olhos tendiam a saltar das órbitas a dor me abandonou de repente. Eu não tinha deixado de olhá-lo.
- Como se atreve a me desafiar?
- Não tenho outra saída.
- Poderíamos fazer um pacto…
- Que romperias sem dúvidas. Jamais pactuaria com você.
- É você quem, agora, não me deixa opção…
Minha atitude exacerbou sua fúria e era óbvio que não teria piedade de mim. Iniciou então uma sessão de torturas infernais. Ignoro como consegui que se detivesse em cada uma de suas tentativas, minha vista parecia perfurá-lo e ele renunciava à beira do fracasso. Contemplava-me atônito sem resignar-se à derrota.
- Ou talvez isto… ou isto - prosseguia.
O sol era apenas uma linha no poente. As primeiras sombras protegiam a cena da vista de possíveis curiosos. Achariam estranhos os movimentos epilépticos de um homem solitário revolvendo-se num banco de madeira. A noite atiçava a paciência do diabo.
Foi quando apareceu esse gato vagabundo de aspecto mais que lamentável. De um salto subiu ao banco miando sua fome e desamparo. Bastou esse instante de distração para que o demônio empalidecesse na penumbra. O tempo tinha expirado.
Acariciei o pêlo do animal e, a meu contato, pareceu reluzir em negrura. Seus olhos, dois fusos amarelos, refulgiram e esfregou sua cabeça contra minha coxa.
- Vou chamá-lo Feri, - lhe disse quase exausto ao mesmo tempo em que me levantava do assento, - não me engano, eu sei quem é você. Dependerá de mim o resto de meus dias, depois… só Deus sabe…
Da imagem vermelha não ficavam rastros. Empreendi, mancando, o regresso para minha casa, o gato atrás de mim.
Passaram muitos anos desde essa tarde. Enquanto meu corpo se encurva e minha memória enfraquece, Feri parece a cada dia mais jovem. A cada amigo que me visita devo lhe mentir e dizer que, conquanto conserva o nome, este felino enegrecido que dorme aos pés de minha cama é neto ou bisneto daquele Feri que recolhi na praça numa tarde que o tempo não conseguiu apagar.
Traduzido pelo Arquivo do Barreto.
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domingo, 16 de dezembro de 2007
O Segredo da Guilhotina, por Villiers de L´isle Adam

Taciturno, imóvel, com os olhos fixos no ambiente, apoiava-se numa cadeira. Uma vela sobre a mesa iluminava a fria palidez do seu rosto. A dois passos dele, um carcereiro, encostado à parede, observava-o.
Os detentos eram quase sempre obrigados a um trabalho cotidiano. Deles a administração descontava, em primeiro lugar, o preço do caixão, que ela não fornecia, ao falecerem. Os condenados à morte, porém, não tinham trabalho algum a fazer.
No rosto do prisioneiro não se lia nem medo nem esperança. Contava trinta e quatro anos, era moreno, de estatura média, robusto; os cabelos, nas têmporas, um pouco grisalhos; o olhar móvel, a fronte alta, as mãos nervosas; a fisionomia ponderada das pessoas severamente elegantes, as maneiras de uma estudada distinção.
No Tribunal do Sena, a defesa do advogado Lachaud, embora brilhante, não pudera destruir, na consciência dos jurados, a impressão produzida pela acusação do senhor de Vallés. E La Pommerais, acusado de ter ministrado premeditadamente e com fim delituoso, doses mortais de digitalina a uma senhora sua amiga - a Sra. De Pauw - ouviu pronunciarem contra ele, como aplicação dos artigos 301 e 302 do código penal, a sentença de morte.
Naquela noite ele ainda ignorava a rejeição do recurso de anulação da pena, e a recusa de qualquer audiência de graça solicitada pelos seus parentes. O seu defensor, mais afortunado, mal fora ouvido, distraidamente, pelo imperador. O venerável abade Crozes, que antes de cada execução se esgotava em súplicas nas Tulherias, voltara sem resposta. Comutar uma pena de morte, em caso semelhante, significaria implicitamente aboli-la. Abriria um precedente. O carrasco fora avisado de que a execução ocorreria no dia nove, às cinco horas da manhã.
Subitamente, um estrépito de coronhas de fuzil ressoou no corredor, a fechadura rangeu inesperadamente, a porta foi aberta e o diretor da prisão surgiu acompanhado de um visitante, que La Pommerais reconheceu ser o ilustre cirurgião Armando Velpeau.
A um sinal, o carcereiro saiu; o diretor, após formal apresentação, também saiu, e os dois colegas se viram, desta maneira, a sós, um diante do outro.
***
Velpeau atingia os sessenta anos. No apogeu da sua fama, herdeiro da cátedra de Larey no Instituto, primeiro professor de clínica cirúrgica de Paris, era considerado, pelos seus trabalhos, um dos luminares da moderna ciência patológica.
Depois de breve silêncio ele falou:
- Entre os médicos as condolências são inúteis. Doutra parte, uma moléstia (da qual morrerei certamente, neste dois ou dois anos e meio no máximo) me classifica, a alguns meses de distância do colega, na categoria dos condenados à morte. Vamos então aos fatos, sem preâmbulos.
- Então, segundo o colega e professor, a minha situação judiciária é desesperada? - interrompeu La Pommerais.
- É o que se teme - responde, simplesmente, Velpeau.
- Assim, a minha hora está marcada?
- Ignoro-o. E como nada ainda está estabelecido a seu respeito, o colega pode contar, até a data certa, com alguns dias.
La Pommerais passou sobre a fronte pálida a manga de sua túnica de detento.
- Seja o que for, estou preparado. Enfim, quanto mais cedo acontecer, melhor será.
- Não tendo o seu recurso, pelo menos até agora, sido rejeitado – prossegue Velpeau – a proposta que estou para fazer-lhe é condicionada. Se o colega for salvo, tanto melhor. Caso contrário...
- Caso contrário?
Velpeau, sem responder, apoiou o dedo médio no pulso do jovem condenado.
- Senhor La Pommerais, - disse – o seu pulso me revela um sangue-frio e uma firmeza raras. O entendimento que tenho com o colega, e que deve ficar em segredo, representa uma espécie de oferta que, dirigida desta maneira, a um médico de sua energia e perfeitamente livre dos fantásticos temores da morte, poderia parecer uma extravagância ou uma intenção delituosa. Porém, mesmo que ela possa desde logo consterná-lo, creio que o colega a quererá tomar em séria consideração.
- Sou todo atento - respondeu La Pommerais.
- O amigo não ignora - prosseguiu Velpeau - que uma das questões mais interessantes da fisiologia moderna é saber se algum rasgo de memória, de reflexão, de sensibilidade real, persiste no cérebro do homem depois que a cabeça lhe é decepada.
Diante deste exórdio inesperado, o condenado sobressaltou-se. Depois, recompondo-se:
- Quando o professor entrou, - respondeu - eu pensava exatamente nesse problema, duplamente interessante para mim.
- O colega está certamente informado dos trabalhos escritos sobre tais problemas: de Sommering, de Sue, de Sédillot, e de Bichat, até os mais modernos.
- Também assisti, certa vez, aos seus cursos de dissecação no cadáver de um justiçado.
- Ah! E tem noções exatas, do ponto de vista cirúrgico, sobre a guilhotina?
La Prommerais responde friamente:
- Não.
- Hoje mesmo estudarei escrupulosamente o aparelho – prosseguiu, sem se comover, o doutor Valpeau. – É um instrumento perfeito. Agindo a um só tempo com gume de foice e como maça, corta o pescoço do paciente exatamente num terço de segundo. O decapitado, sob a rapidez deste golpe fulminante, não pode então sentir mais dor, como a que experimenta o soldado que, na luta, perde um braço inteiro, na explosão duma granada, A sensação, pela exigüidade do tempo, é nula.
- Talvez a dor sobrevenha depois...
- Bérard fez justiça a esta fantasia - interrompe prontamente Velpeau. – Tenho a firme convicção, fundada sobre numerosa experiências, e sobre minhas observações gerais, que a recisão instantânea da cabeça produz no indivíduo decapitado o desfalecimento anestésico absoluto. Simplesmente a síncope, provocada repentinamente pela perda de quatro ou cinco litros de sangue que irrompem dos vasos – freqüentemente com uma força de projeção circular de um metro de diâmetro – bastaria para tranqüilizar os mais medrosos. Quanto às reações inconscientes da máquina carnal, subitamente sustada no seu processo, são indício de sofrimento tanto quanto pode ser o frêmito de uma perna cortada, cujos músculos e nervos se congtraem depois da amputação, mas da qual o indivíduo não sofre mais. Digo que a febre nervosa da incerteza, a solenidade dos preparativos fatais, o sobressalto do despertar do dia final, representam a parta mais evidente do pretendido sofrimento. A amputação, não podendo ser senão imperceptível, a dor real não é senão imaginária. Um golpe tão violento na cabeça não é sentido, como não deixa consciência alguma do seu choque: a simples lesão das vértebras acarreta a insensibilidade absoluta. A própria rescisão da cabeça, a interrupção da espinha dorsal, a abolição das relações orgânicas entre o coração e o cérebro, porventura não seriam suficientes para estancar, na parte mais íntima do ser humano, qualquer sensação, mesmo vaga, da dor? Eu o creio.
- Pelo menos eu o espero, e mais ainda que o professor! - responde La Pommerais. - Ainda que, realmente, exista qualquer forte e rápido sofrimento físico, (apenas concebido pela desordem sensorial e subitamente sufocado pela invasão crescente da morte) não é isso que temo. É outra coisa...
- Quer explicar-se? - indagou Velpeau.
- Ouça-me - murmurou La Pommerais, depois de um instante de silêncio. - Eu penso que os órgãos da memória e da vontade sejam respeitados na passagem da lâmina! Temos experimentado muitos equívocos anteriores, para que se possa ainda falar da inconsciência imediata de um decapitado. Quantos homens, interrogados, não têm volvido sua atenção para o problema?... Memória dos nervos? Movimentos reflexos? Não. Recorda-se da cabeça daquele marinheiro que, na clínica de Brest, um quarto de hora após sua decapitação, partiu em dois pedaços, com um movimento de maxilas, talvez voluntário, um tubo colocado entre elas?... Para não escolher senão este exemplo, entre mil, a questão real seria então saber se existe ou não o ego deste homem, que contrai os músculos, da sua cabeça exangue. Quem poderá revelá-lo? Antes de oito dias certamente eu o saberei, mas... também esquecerei!
- Depende mesmo do colega iluminar a humanidade a respeito, de uma vez por todas - responde vagarosamente Velpeau, fixando os seus olhos nos do seu interlocutor. – E, falemos claro, é exatamente por isto me encontro aqui. Sou o delegado junto ao colega, de uma comissão dos nossos mais eminentes companheiros da Faculdade de Paris, e aqui está o meu passaporte do imperador. Contém poderes bastante extensos para impor – se for o caso – uma transferência da própria ordem da sua execução.
-Explique-se... não entendo... - respondeu surpreso La Pommerais.
- Senhor de La Pommerais! Em nome da ciência, que nos é muito cara e que não conta mais entre nós com o número dos seus mártires magnânimos, eu venho reclamar - na hipótese de alguma experiência entre nós não ser possível – venho reclamar de todo o seu ser a maior soma de energia e de coragem que se possa reclamar de um homem. Se o seu recurso de graça for negado, o colega se encontra, como médico, na posição de um indivíduo competente, na suprema operação que deve sofre. O seu concurso seria, então, inestimável, numa tentativa de comunicação, e poderia esclarecer milagrosamente a fisiologia moderna. A ocasião deve ser desfrutada. No caso de um sinal de inteligência, vitoriosamente modificado depois da execução, o colega deixará um nome cuja glória científica cancelará para sempre a recordação de sua culpa social.
- Ah! - murmurou La Pommerais, empalidecendo, porém com um resoluto sorisso. - Começo a compreender!... E de que natureza seria a experiência? Choque elétrico? Excitação do nervo ciliar? Injeção de sangue arterial?
- É inútil frisar ao colega que, depois da triste cerimônia, o seu cadáver irá repousar em paz sob a terra e que nenhum dos nossos instrumentos o tocará – acrescentou Velpeau. – Mas ao cair da lâmina lá estarei de pé, diante do colega, perto da guilhotina. No prazo mais rápido possível, a sua cabeça passará das mãos do carrasco para as minhas. E então, eu lhe gritarei distintamente, ao ouvido: “Senhor de La Pommerais, pode, neste momento, abaixar três vezes a pálpebra do olho direito, conservando o outro olho aberto? Se, naquele momento, quaisquer que sejam as outras contrações faciais, o colega puder mediante este tríplice bater de pálpebras, avisar-me de que me ouviu e compreendeu, e provar, fechando assim, com um ato de memória e de vontade, o seu músculo palpebral, o seu nervo zigomático e a sua conjuntiva – dominando todo o horror, toda a onda das outras impressões do seu ser – este fato bastará para elevar a ciência, para elevar as nossas convicções. E eu saberei, esteja certo, anunciá-lo de maneira que, no futuro, o colega deixará a lembrança, não de um delinqüente, mas de um herói.
A estas palavras insólitas, La Pommerais parece golpeado tão profundamente que, com suas pupilas dilatadas e fixas no cirurgião, permanece vários minutos silencioso, como que petrificado. Depois se ergue, dá alguns passos nervosamente, e balançando com tristeza a cabeça, fala:
- A horrível violência do golpe far-me-á desmaiar. Realizar o que me propõe parece-me acima de toda vontade, de todo esforço humano. Por outro lado, afirma-se que as probabilidades de vida não são as mesmas para todos os guilhotinados. Todavia volte, professor, no dia da execução. Responderei se concordo ou não com esta tentativa ilusória e ao mesmo tempo chocante. Se eu não concordar, conto com a sua palavra, no sentido de que minha cabeça sangre tranqüilamente até a última gota, no vaso de barro que a acolherá.
- Está bem, senhor de La Pommerais - disse Velpeau, levantando-se - reflita sobre o caso.
Em seguida, o doutor Velpeau saiu da cela. O carcereiro reapareceu. E o condenado se estendeu, resignado, para dormir ou sonhar.
***
Quatro dias depois, às cinco e meia da manhã, o diretor da Roquette, o abade Crozes, os senhores Claude e Potiers, este conselheiro da corte imperial, penetraram na cela.
O doutor de La Pommerais, ao saber da notícia fatal, conservou-se de cabeça baixa, muito pálido. Depois se levantou e se vestiu rapidamente. Conversou, em seguida, dez minutos com o abade Crozes, ao qual agradecera já a visita e vendo aproximar-se o doutor Velpeau:
- Tenho trabalhado – disse – veja!
E, durante a leitura da sentença, conserva fechada a sua pálpebra direita, fixndo o cirurgião com o olho esquerdo bem aberto.
Velpeau inclinou-se profundamente, depois, voltando-se para o carrasco que entrava com seus ajudantes, trocou com ele um olhar compreensivo.
O apresto foi rápido. Notou-se que o fenômeno dos cabelos que embranqueceriam visivelmente, sob o corte da tesoura, não se verificou. La Pommerais recusou o copinho de aguardente e o cortejo se pôs a caminho, no corredor. Diante do pátio, encontrando na porta o colega, murmurou-lhe:
- Daqui a pouco... adeus!
***
Repentinamente os grandes portões de ferro do cárcere, que davam para a rua, se abriram.
A aurora despontava. A grande praça se estendia, fechada por um duplo cordão de cavalarianos. Defronte, a dez passos, num semicírculo de guardas a cavalo, surgia o patíbulo. A certa distância, além do grupo de jornalista, ninguém se encontrava. Lá embaixo, atrás das árvores, ouviam-se os rumores bestiais da multidão, cansada da vigília. Nos tetos das tavernas, nas janelas, numerosas jovens corrompidas, lívidas, em hábitos excêntricos – surgiam em companhia de tristes casacas pretas. As andorinhas, madrugadoras, voavam em todas as direções, sobre a praça.
A guilhotina parecia prolongar, no horizonte, a sombra dos seus braços estendidos, entre os quais, lá em cima, muito mais distante no clarão da alvorada, se via brilhar a última estrela.
Diante deste fúnebre espetáculo, o condenado teve um frêmito; depois se movimentou, resolutamente, em direção ao palco. A lâmina triangular brilhava no negro madeirame; as cinco personagens se destacavam, com seu perfil, no patíbulo, e o silêncio, naquele momento, se tornou tão profundo que o longínquo rumor de um ramo de árvore esmagado pelos pés de um curioso veio até o trágico grupo.
Naquele momento, soando a hora em que lhe foi negado o último recurso, o doutor de La Pommerais percebeu, do outro lado, o seu ilustre colega, que o observava. Medita um instante e fecha os olhos.
A mola agiu subitamente, o botão cedeu, o brilho da lâmina oscilou. Um choque violento sacode a plataforma e os cavalos se empinam, sentindo o cheiro repentino de sangue; o eco do rumor ainda vibrava, quando a cabeça sangrante da vítima palpitava entre as mãos impassíveis do doutor Velpeau, avermelhando-lhe os dedos, os punhos, a roupa.
Era um rosto horrivelmente branco, de olhos escancarados e como que distraídos, de supercílios arqueados, com a boca contraída; os dentes batiam, e o mento, na extremidade da mandíbula, estava cortado.
Velpeau curvou-se, rápido, sobre aquela cabeça e fez, na orelha direita, a pergunta combinada. Embora estivesse preparado para a operação, o resultado fê-lo sobressaltar-se, inspirou-lhe um frio espanto: a pálpebra do olho direito se abaixou, enquanto o olho esquerdo, aberto, o fixou.
-Em nome de Deus e do nosso ser, mais duas vezes este sinal! – gritou um pouco confundido.
Os cílios separaram-se, como sob um esforço interno, mas a pálpebra não mais se ergueu, a fisionomia, pouco a pouco, se tornava rígida, gélida, imóvel. Era o fim. O doutor Velpeau entregou a cabeça exangue ao carrasco, o qual, reabrindo o cesto, a colocou, segundo o costume, entre as pernas do tronco já inteiramente rígido.
O célebre cirurgião lavou as mãos numa das vasilhas destinadas à lavagem, já iniciada, da guilhotina. A assistência, em torno, se dispersava, pensativa. Sempre em silêncio, o doutor enxugou as mãos; depois, a passo lento, a fronte preocupada e grave, alcançou a sege que o guardava na esquina da prisão.
No momento em que saía, observou a lúgubre carreta afastar-se, a trote rápido, para o cemitério dos justiçados.
Conto retirado da coletânea Maravilhas do Conto Francês, editado pela Cultrix e organizado por Diaulas Riedel.
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domingo, 2 de dezembro de 2007
A Ponte de Bambu, por Thuy an Hoang Dan

- A frente de batalha se deslocou e está nos alcançando!
Algumas entre as pessoas que tinham esperado as últimas notícias à entrada principal da aldeia, saíram correndo na direção de suas pobres casa para pôr a salvo os objetos sobre os quais pudessem botar as mãos. Outros ficaram para trás, a fim de ajudar os velhos ou carregar nos braços as crianças. As mulheres traziam às costas as coisas mais estimadas que tinham apanhado nas míseras casas; os homens transportavam ferramentas ou instrumentos agrícolas; e todos se aglomeravam, empurravam-se, acotovelavam-se, na ânsia de abandonar a aldeia ameaçada. No meio desse aperto não havia ninguém que soubesse, com certeza, para que lado era preciso dirigir-se; instintivamente, cada um se reunia à massa dos retirantes, sem procurar informar-se de que lado era o avanço ou que distância os separava do exército que se aproximava da periferia do país.
Os camponeses não tinham mais do que uma idéia - fugir - fugir correndo, arquejando, apertando ao colo ou conduzindo amarrados às costas, os filhos e os poucos haveres.
Agora, o fogo parecia vir do todas as direções: os fugitivos já ouviam o rodar dos pesados carros de guerra e tinham a impressão de que o solo tremia sob seus pés. Sem olhar à volta de si, caminhavam com grande pressa, desordenadamente. Mas logo começaram a se desencontrar, a se perder: os maridos ficavam separados das mulheres e asa mães dos filhos, e o angustioso silêncio do êxodo era quebrado pelos gritos dos que procuravam as pessoas queridas, extraviadas na multidão.
Entretanto, à chusma se juntavam sempre novos retirantes e o pânico crescia em conseqüência dos seus confusos boatos.
- Já chegaram ao dique.
- Vêm com tanques.
- Procedem das bandasd de Dahn Yugen.
- Estão atirando sobre a aldeia.
Como para confirmar esta última notícia, uma rajada de projéteis passou sibilando sobre as cabeças dos fugitivos, alinhados à beira do rio. Todos se curvaram, enquanto do meio das mulheres erguia-se um grito desesperado:
- Caímos na ratoeira! Caímos na ratoeira!
- Devemos atravessar o rio? É a única esperança que nos resta!
Num inesperado sobressalto, todos os prófugos se atiraram ao rio, abandonando os fardos que os embaraçavam, os embrulhos apressadamente amarrados. Na confusão, os velhos gemiam, as crianças gritavam. Uma mulher deixou escapar um urro histérico, quase louca. Uma voz máscula ecoou alta sobre o tumulto:
- Silêncio! Se eles nos ouvem, nos atiram pelas costas e nos reduzem a papas!
A esse aviso, os prantos e as invocações dos velhos cessaram com por encanto; as mulheres constrangiam os filhos ao silêncio, tapando-lhes a boca com a mão. Na estrada que passava rente ao dique, o troar dos tanques se confundiu com o pipocar dos fuzis. O horrível concerto de morte aumentava de volume à proporção que se fazia mais próximo: agora se ouvia distintamente o sibilar dos obuzes.
Mas na beira do rio, situada um pouco abaixo da estrada, a multidão se havia tornado calma, como se tivesse a certeza de ali se encontrar em segurança, e já havia começado a recolher as ferramentas e os embrulhos que havia atirado fora pouco antes. Os homens válidos se apressavam a desamarrar as cordas das embarcações redondas, em forma de cestos e, manejando vigorosamente os remos, começavam a recolher os retirantes. Em poucos minutos as barca estavam cheias, até as bordas, de velhos e mulheres que embalavam no colo os filhinhos. Os jovens se atiraram à água para atravessar o rio a nado. Os fardos que ainda não tinham sido recuperados pelos donos ficaram abandonados na margem; todos compreendiam sem necessidade de explicação, que em primeiro lugar era preciso salvar os seres humanos. Os objetos seriam transportados para o outro lado com a última embarcação. Pouco a pouco, quando as barcas avançavam para o meio do rio, o medo retomava os retirantes que – reunidos em tão exíguo espaço sobre a grande vastidão das águas – se julgavam um alvo ideal para a artilharia inimiga. Então, ninguém voltava mais o olhar par a aldeia e para a margem na qual os outros esperavam, devorados pelo terror de se encontrarem envolvidos na batalha antes que os arcos voltassem para recebê-los.
Mas os canoeiros, manejando os remos com desesperado vigor, conseguiram transpor todos os homens, mulheres e crianças para a margem oposta. Quando, finalmente, a última travessia foi realizada os havares foram postos inteiramente a salvo, os infelizes recobraram ânimo. Somente então, estirados, resfolegantes sobre a margem, ousaram olhar a região que tinham sido obrigados a abandonar.
Sobre eles o céu estava negro, carregado de nuvens de fumaça, em cuja escuridão projetava-se, de quando em quando, uma língua de chama. Tanto as colunas de fumo como as labaredas vermelhas se torciam como serpentes espavoridas. O incêndio que se havia manifestado em uma extremidade da aldeia, já havia alcançado as casas centrais e, dentro de pouco, teria devorado tudo. O fumo e as chamas se haviam estendido a tal ponto que se tornava impossível ver ao longe as cabanas intactas e as já destruídas. Através do rio, as cinzas transportadas pelo vento, grudavam no rosto dos retirantes; atônitos, desolados diante da inesperada catástrofe, ele se calavam, extenuados. Finalmente, um homem, depois de haver limpado das cinzas o rosto, olhou as mãos enegrecidas e rompeu em pranto:
- Olhem aqui! – disse àqueles que estavam acocorados à sua volta. – O fruto de tantos anos de suor se transformou em fumaça! Todo o trabalho e toda a poupança! Deus Onipotente!
Parecia que todos estavam à espera daquele momento. As lágrimas começaram a correr; por fim os homens soluçavam amargamente, sem mais reservas.
Mas um dos notáveis da aldeia disse em voz alta:
- A catástrofe pesa sobre toda a nação. Não acrediteis que somente vossas casas sirvam de pasto às chamas!
Estava ainda arengando à chusma quando alguém o interrompeu:
- Olhem lá do outro lado... Não vêem um homem com um búfalo?
Todos os olhos se voltaram para a margem oposta. O homem que tinha surgido dos torvelinhos de fumaça trazia atrás de si um búfalo e caminhava em ziguezagues, com para se subtrair à pontaria de invisível adversário.
Os camponeses, reconhecendo Trung Bay e o seu búfalo, começaram a chamá-lo aflitamente, protegendo a boca com as mãos, a fim de que a voz chegasse até a outra margem. Poderia ele ouvi-la entre os disparos, o ronco pesado das máquinas e o estralejar das paredes de bambu e de tábuas, ardendo na imensa fogueira?
Sim, com certeza a ouviu, pois fez um sinal com a mão; depois recomeçou a puxar o cabresto, guiando o búfalo para cima da ladeira. Já estava perto da margem quando, de repente, mudou de direção e pareceu abrigar-se atrás do animal. Um instante após, inesperadamente, Trung Bay deixou cair os braços e levou as mãos ao estômago. O búfalo empinou-se, deu um puxão no cabresto e partiu numa corrida louca, como se estivesse ferido.
À vista disso, na massa dos retirantes, que pelo simples fato de haver abandonado a região condenada, se julgavam em segurança, renasceu o terror. Alguns se entregaram a tresloucada fuga; e, dali a pouco, a multidão inteira saiu correndo para os arrozais. Havia algum tempo, como estivessem num período de tórrida canícula, ninguém trabalhava nos campos que se haviam tornado enxutos.
Então, entre as touceiras de bambus, viram aparecer pardas e vermelhas as primeiras casas da terra de Nquon. Aos olhos dos fugitivos, essas sólidas e bem construídas habitações representavam um porto, um refúgio seguro que os protegeria da morte por emboscada, na outra margem do rio.
Com a maior rapidez possível, os rostos molhados de suor e a respiração ofegante, arrastando atrás de si velhos e crianças, eles avançaram naquela direção; mas, depois de haverem atravessado uma dezena de arrozais, viram surgir, do canavial à direita, outro grupo de retirantes. Naquela multidão puderam reconhecer-se como num espelho: era uma massa desordenada e desesperada, carregando ferramentas, que corria acossada pelo terror, com a morte nos calcanhares. No mesmo instante, atrás do canavial, surgiu um esguicho de fogo e uma chuva de projéteis assobiou no ar, seguida imediatamente de uma rajada de metralhadora e, logo depois, de outra.
- É uma manobra de tenaz! – gritou alguém. – Eles estão chegando pelos dois lados do dique! Como faremos para fugir?
Os prófugos compreenderam que se encontravam no centro de uma dupla linha de inimigos. Diante deles, no ponto exato em que poucos minutos antes se haviam iludido, com a esperança de encontrar abrigo, no santuário de uma vila isolada da frente, altas labaredas se levantaram para o céu.
- De que modo nos poderemos salvar?
Pararam, sem saber o que fazer. O círculo de fogo parecia apertar-se com o passar dos instantes e, nas bandas de Nquon, o troar da artilharia se tornava mais intenso.
Da chusma dos fugitivos vinham conselhos e exortações. – Acompanhai-nos. Conhecemos todas as estradas. Iremos na direção de Yen Da e procuraremos nos esconder entre os morros!
Novamente todos se puseram a correr, nas pegadas dos outros fugitivos. Sobre os arrozais o sol tinha perdido grande parte do seu calor e o vento se tornara fresco. Embora estivessem alquebrados pela canseira, não ousavam parar. Ninguém mais ouvia o pranto das mulheres e das crianças, os gemidos dos velhos. Todos se precipitavam através da planície deserta, sob o céu que – como para tornar mais agudos os seus sofrimentos – deixava cair do compacto acolchoado de nuvens baixas, uma chuva maligna, gélida, pungente.
Mas que importância tinham a chuva e o frio? Numa só coisa podiam pensar aqueles infelizes: na distância que os separava de um refúgio seguro. Os que não sabiam onde ficava Yen Da pediam informações aos outros.
- Ainda está longe. É preciso atravessar uma ponte de bambu suspensa no ar. Passada essa ponte, estaremos no distrito de Yen Da.
Através da cortina de chuva e da bruma da tarde, a pequena ponte parecia na verdade flutuar no espaço e os finos parapeitos de bambu balançavam com ritmo medroso, agitados pelo vento. A luz ia minguando rapidamente; o céu, obscurecido pelas densas nuvens que de quando em quando se abriam vomitando línguas de chamas, lembrava as fauces sanguinolentas de um terrível monstro. Dir-se-ia que as espirais de fumo e as ensurdecedoras detonações saíssem da sua ígnea garganta.
Apenas descobriram claramente a pontezinha, alguns fugitivos ficaram de rosto iluminado e sorriam. Embora o troar da artilharia continuasse regular, imutável, a uma distância sempre igual, muitos acreditaram já se encontrar fora de perigo. Algumas velhas rezavam com ardor, sem deixar de caminhas, com os olhos fixos na ponte que separava os dois distritos.
Mas quando a multidão chegou às suas proximidades, alquebramento e pavor apareceram em todos os rostos. O leito do rio não era largo; todavia, as águas pareciam profundas, a correnteza rápida e vertiginosa. Ninguém se admirou ao ver que essa ponte era construída com poucas varas de bambu, fixadas nas duas margens e reforçadas por outras varas entrelaçadas, de duas em duas, e fincadas no terreno subjacente, à guisa de pilastra. Um corrimão de bambu estendia-se em todo o comprimento da ponte, cujo piso estava acima do nível das ondas apenas um palmo. Logo depois, os receosos retirantes começaram a dirigir-se uns aos outros perguntas e encorajamentos.
- Agora não podemos fazer outra coisa senão atravessá-lo.
- Ah! Para os jovens a coisa é simples! Mas os velhos e as crianças? E como transportaremos as bagagens?
Os notáveis de Nguyen interrogaram os de Nquon.
- Não haverá uma estrada à margem do rio? É impossível permanecer à espera de que cada um atravesse por sua vez!
A discussão foi interrompida por uma espantosa explosão a cento e cinqüenta metros de distância; sobre a cabeça dos retirantes caiu uma chuva de lama. Novas explosões se seguiram à primeira, como se os canhões, na outra margem do rio, tivessem ajustado a mira sobre os prófugos.
O pânico se assenhoreou novamente dos ânimos: um se atirou às águas na esperança de alcançar a margem oposta; e outros se arriscaram sobre a ponte que, com o peso excessivo, começou a tremer e a oscilar. As poucas pessoas ainda capazes de raciocinar, tentaram restabelecer a ordem naquele pandemônio.
- Atrevessem a ponte, um de cada vez. Não se empurrem, pois desse modo todos se afogarão!
Tais exortações produziram efeito, graças principalmente ao fato de que o fogo cessara por um momento. Além disso, o risco de aventurar-se sobre a ponte equivalia ao de ficar exposto ao bombardeio. Embora avançasse prudentemente, cada fugitivo sentia o pavimento vacilar sob o próprio peso, com se estivesse a ponto de se dobrar. Ninguém ficaria pasmo se, de um momento para outro, fosse atirado naquelas águas borbulhantes que o lambiam.
Diversas pessoas já a haviam atravessado quando, da multidão, se destacou uma mulher que trazia às costas comprido varapau; em cada uma das extremidades as balançava um cesto. Além disso, a escuridão era quase completa. O homem que a seguia, não tendo visto o conteúdo dos cestos, agarrou nas cordas em que eles estavam pendurados.
- Bote tudo isso no rio! – aconselhou-a. – Você precisa sofrer para alcançar a margem oposta, mesmo sem este peso!
A mulher apertou com mais força o varapau, como se nem sequer tivesse ouvido tais palavras. Mas dos cestos onde a grosseira mão do homem tinha dado uma sacudidela, ergueu-se um chora de criança.
- Que traz aí dentro?
Ao redor, todos esticaram o pescoço para ver melhor. Em um dos cestos estava acocorado um menino de três a quatro anos, e no outro dormia tranqüilo um pequenino de pouco meses.
- Meu Deus! Como espera você passar a ponte com estes dois moleques nos cestos?
A mulher respondeu com catadura feroz!
- Conseguirei. Tenho atravessado pontes menos seguras com cargas mais pesadas.
Profundamente comovida, a multidão ficou a olhar a mulher que seguia lenta sobre os mal firmes bambus, debaixo do fino véu da chuva atravessada pela claridade lunar. Aquela tentativa era um desafio atirado à sorte; entre os que haviam ficado, foram muitos os que, embora duvidando do seu êxito, dispuseram-se a considerá-lo como um feliz presságio. Sem dúvida, disseram de si para si, se aquela mulher chegasse sã e salva à margem oposta, todos os prófugos alcançariam Yen Da sem ulteriores perdas e danos.
Mas o bombardeio caprichoso, que se havia interrompido pouco antes, recomeçou de repente, mais próximo. Antes que os fugitivos tivessem tempo de atirar-se no chão, uma enorme bomba explodiu no meio da multidão apinhada na cabeceira da ponte. Na selvagem confusão que se verificou em seguida, muitas pessoas se atiraram ao rio, na ilusão de encontrar uma defesa contra os projéteis; outras embocaram pela ponte, com renovado desespero.
A mãe, que já estava no meio do trajeto, estacou de chofre como paralisada pelo terror e voltou o rosto a fim de ver o que estava sucedendo atrás dela. No entanto, os primeiros passos dos fugitivos aglomerados na extremidade da ponte, faziam-na oscilar de modo pavoroso e, para não perder o equilíbrio, a mulher teve que apoiar-se com as duas mãos no parapeito de bambu.
O cesto anterior veio, assim, a encontrar-se suspenso no vácuo e rompeu o precário equilíbrio. Varapau, cestos e crianças caíram juntos na água. O grito desesperado da pobre mão foi coberto pelo estrondo das explosões e pela gritaria da gente que se precipitava na água para alcançar os nadadores, dos quais, naquele momento, não se via mais do que as cabeças.
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domingo, 25 de novembro de 2007
Contágio Sobrenatural Oblíquo, por Luciano Barreto
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domingo, 18 de novembro de 2007
Horror Real, Terror Sobrenatural, por Luciano Barreto
Soneto escrito por mim há alguns meses. Uma obra que esclarece, do meu ponto de vista, a diferença entre Horror e Terror. Boa leitura!
Um homem de motocicleta
Alvejado várias vezes por outros dois, num carro prata.
O motociclista pendeu para o lado, depois que o carro partiu.
Em segundos foi chão.
Caiu agonizante no asfalto noturno.
Eu me aproximei estupefato.
Reparei seu rosto de horror ante a situação.
Fiquei arrepiado ao ver uma sombra negra.
Que se originava do asfaltado em feixes desconexos.
Tornando-se um vórtice fantasmagórico a pairar sobre o homem.
Quando morreu, algo indescritível aconteceu.
Seu espírito, atormentado, clamava justiça com rosto obscurecido
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- 1 - A Coisa na Soleira da Porta, por H. P. Lovecraft
- 2 - A Cor que Caiu do Céu, por H. P. Lovecraft
- 3 - A Excursão, por Stephen King
- 4 - A Pata do Macaco, por W. W. Jacobs
- 5 - A Queda da Casa de Usher, por Edgar Allan Poe
- 6 - Eu Sou Umbral da Porta, por Stephen King
- 7 - O Cone, por H. G. Wells
- 8 - O Segredo da Guilhotina, por Villers L'Isden-Adam
- 9 - Os Salgueiros, por Algernon Blackwood
- 10 - Gato Preto, por Edgar Allan Poe
- 11 - A Ponte de Bambu, por Thuy an Hoang Dan
- 12 - A Excursão, por Stephen King
- 13 - O Grande Deus Pan, por Arthur Machen
- 14 - Clóvis e o Desespero, por Henry Evaristo
- 15 - Memórias da Terra dos Mortos, por Luiz Poleto
- 16 - O Espelho da Estalagem, por Paulo Soriano
Indicações Literárias (Livros)
- 1 - A Casa Sobre o Abismo, por William H. Hogdson
- 2 - O Exorcista, por William Peter Blatty
- 3 - Contos de Horror do Século XIX, por Alberto Manguel
- 4 - Tripulação de Esqueletos, por Stephen King
- 5 - O Assassinato de Roger Ackroyd, por Agatha Christie
- 6 - O Dia do Chacal, por Frederick Forsyth
- 7 - Eu Robô, por Isaac Asimov
- 8 - Admirável Mundo Novo, por Aldous Huxley
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